12 fevereiro 2011

não é suficiente.


Ele não ligou naquela noite, não mandou mensagens, não disse que me amava o que sentia saudades. Mas eu não me incomodei com isso.Tempos atrás eu surtaria com tal fato. Eu ligaria para ele, eu me sentiria insegura, eu temeria perder sua atenção. Mas hoje não. Hoje eu não senti nada. Nem hoje, nem ontem, nem semana passada.Na manhã seguinte ele também não ligou, não apareceu para me ver, não me deixou recado algum.Mas eu não me importei. Tanto fazia.
Pelo resto do dia ele não procurou-me e não pensei nele, sobre onde, com quem ou fazendo o que ele estava. Ele não me provocava saudades. Não mais.Eu não estava nem percebendo a mudança. A minha mudança. Geralmente brigávamos com freqüência e de certa forma, eu entendia o lado dele. Eu tinha ciúmes demais, eu ligava demais o tempo todo, eu me preocupava demais e ficava ao lado dele a cada segundo, sempre ali para o caso de ele precisar de mim, para o caso de ele querer-me. Eu não dava espaço para ele, eu não lhe dava tempo para sentir minha falta.Então aos poucos fui me afastando, ligando menos, grudando menos, me preocupando menos. Ele não me parou. Não reclamou meu distanciamento, não me pediu para continuar ali.E no começo foi difícil para mim... Eu sentia falta dele, sentia saudade de cuidar dele, de estar com ele. E eu sentia medo. Medo de me afastar e o pouco do amor que ele sentia por mim, acabar.
Mas os dias foram passando, eu fui me ocupando e descobrindo felicidade onde antes eu não conseguia enxergar. Eu cuidei mais de mim, me preocupei menos com os problemas, relaxei... Fui dando espaço para mim. Eu ainda ligava para ele de vez em quando, claro que sim, eu o amava. Ele era meu namorado.Mas eu ligava pouco. E ele não se importou.
Foi então que eu parei definitivamente. Mas não foi uma escolha. Foi tão natural que nem eu mesma percebi. No fundo, havia um certo vazio quando chegavam aqueles momentos do dia em que eu passava ao lado dele. Mas sempre tinha algo para fazer... E eu sempre me distraia.
Alguns dias depois ele me ligou. Conversamos sobre nossos dias, sobre o que tínhamos feito... E foi bom. Mas só bom.Ele continuou a ligar nos dias seguintes e continuamos conversando. Nos encontramos nos finais de semana e ele aparecia na minha casa num dia qualquer.Ele percebeu que eu estava diferente. Foi quando eu percebi também.
- Você ainda me ama? – Ele perguntou quando estávamos juntos.
- Claro que sim. – Respondi imediatamente sem nem ao menos pensar na pergunta, ou na resposta. – Porque?
- Você não me liga mais, não me procura... Só fala comigo quando eu falo com você. Parece que não está mais nem aí. – Ele falou.
Era verdade. Eu estava bem com ele tanto quanto estava bem sem ele. Ele não era mais essencial.
- Pensei que era isso que você queria. Sempre brigávamos porque eu grudava demais em você, certo? – Perguntei.
Até aquela conversa era indiferente para mim. Eu não estava me importando em aonde ela chegaria. - Parece que invertemos os papeis. – Ele murmurou.
Na semana seguinte eu já não sentia mais nada. Ele estava me tratando da forma como eu sempre quisera. Ele ligava todas as noites, ele era carinhoso, romântico, ele me fazia surpresas e até demonstrava ciúmes.Mas aquilo não mexia mais comigo. Começava a me incomodar.E então eu o procurei, e terminei.Ele chorou, eu chorei. Ele disse que me amava, que sentia falta da minha presença constante ao seu lado, disse que sentia falta da minha preocupação, dos meus cuidados, do meu amor. Até mesmo do meu ciúme.Ele disse que precisou me perder para perceber que me amava, precisou da minha ausência pra entender o quanto precisava da minha presença.Ele pediu outra chance.Mas tudo que eu consegui dizer foi: ''Eu te amei mais do que qualquer coisa, mais do que a mim. Eu te amei por tanto tempo e recebi sua indiferença por tanto tempo, que hoje, o amor que eu sinto por você não é suficiente para o amor que você descobriu sentir por mim. ''
Há muito tempo é dito que as pessoas precisam perder para aprender a dar valor. Isso não só é verdade como muitas vezes é inevitável.Eu fiquei sozinha por algum tempo. Me descobrindo, cuidando de mim mesma, aprendendo a me dar o devido valor que eu tinha. Eu senti falta dele algumas vezes. Ele também sentiu a minha. Um ano depois nós voltamos.Eu estava mais segura de mim mesma. Ele estava mais atencioso. Nós estávamos diferentes das pessoas que éramos antes, e nos apaixonamos perdidamente por essa nova versão de nós mesmos. Nos casamos alguns anos depois, tivemos filhos. Nos tornamos amantes, nos tornamos amigos. Envelhecemos juntos e continuamos juntos, gratos por termos aprendido o segredo do amor: devemos amar a nós mesmos antes de amar alguém. E para o amor permanecer ali, é apenas preciso... Cultivar.